| Um encontro de culturas |
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| Escrito por Administrator |
| Quinta, 27 Maio 2010 14:15 |
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«Qualquer dia vou matar um narrador» Entrevista com Pepetela em 21 de Maio de 2010 Fernando Pessoa dizia que «A língua é a nossa pátria». Sente que a língua portuguesa é a nossa pátria, Pepetela?Não, eu penso que não, eu acho que a pátria já passa um bocado isso, quer dizer, é evidente que a língua faz parte da pátria; ligada à língua há toda uma cultura e ciência da própria língua, e também que ultrapassa, o sentido que une os próprios povos, agora a pátria, no fundo, é mais a terra de onde uma pessoa acha que vem, não é forçoso que seja a terra onde nasceu, não é isso, mas onde a pessoa acha que tem mais vínculos e que sente, acho que isso é que é a pátria. A língua pode fazer parte… Agora, compreende-se na altura o que o Pessoa queria dizer, o pessoal também viveu ou cresceu na África do Sul em ambientes ingleses, etc, e penso que é nesse sentido de dizer que se sentia bem era na língua portuguesa, com a língua portuguesa, isso sim, aí estou de acordo com ele… Ele usou a expressão «pátria», mas a língua poderia ser a nossa «casa comum», entre o português e o angolano… Claro, é o grande factor de uma unidade de diálogo nesses países, de todos os países. Como está a língua portuguesa em Angola? Praticamente é falado por toda a gente. Ainda não há dados oficiais, o recenseamento da população vai ser feito, acho que é em 2012 mas do que se sente e pressente, atiraria assim com 95% da população percebe português e fala. Agora, em graus muito diferentes de conhecimento: há os que falam bem “tudo” e os que falam mal e as graduações no meio. Mas, de facto, é a língua com a qual é possível contactar todos os angolanos e em todo o espaço nacional, é o português. Agora, o que há é um mau ensino da língua portuguesa, sem dúvida alguma; Há agora uma reforma escolar, espero que contribua para melhorar o ensino da língua. Há um mau ensino e esse mau ensino da língua faz com que os jovens, alguns com vontade e com talento até para escrever, não tenham instrumento língua, e não consigam escrever bem. E isso reflecte-se ao nível da literatura também. Uma pessoa lê coisas e percebe-as, está ali alguém com capacidade e com sensibilidade, etc, mas não tem o domínio suficiente do instrumento para o usar. Mesmo que se queira usar, por exemplo, a linguagem popular que é um pouco “estragar o português”, como faz o Luandino (Vieira), aliás, mas para fazer isso é preciso conhecer muito bem a língua portuguesa. E o acordo ortográfico? Fala-se tanto no acordo ortográfico… É… Eu já estou um bocado cansado desse acordo… … ainda falamos disso ao almoço…. Ainda por cima porque eu tenho uma posição que é quase insustentável no meio em que existe porque há os que estão de acordo com o acordo e há os que não estão de acordo com o acordo, porque acham que este acordo muda muitas coisas. Bom, a minha posição é uma terceira: não estou de acordo porque acho que muda pouco. Acho que devia ser mais radical. Para ser um acordo devia ser mais radical, senão não vale a pena. O que se está a fazer não vale a pena: muda-se para não mudar muito. É perder tempo e talvez até perder algum dinheiro, se calhar até nem é assim tanto dinheiro que se perde com o acordo. Sei lá, os livros estão feitos, escritos com a grafia anterior continuarão a servir e a ser compreendidos perfeitamente e depois pouco a pouco vão ser substituídos pelos outros de nova grafia. Economicamente não é um argumento importante, tem sido esgrimido esse argumento e não parece ser muito importante. Agora para fazer um acordo, então fazia-se um acordo de facto radical, isto é, punha-se as pessoas de Timor, Brasil, Angola, Portugal, a escrever da mesma maneira as palavras e cada um depois lia conforme a pronúncia do país. E aí sim era um acordo ortográfico. Foi Vice-ministro da Educação do Governo de Agostinho Neto até 1982; hoje é professor universitário… Deixei de ser! Mas é até há pouco tempo era… Sim, até há pouco tempo era. Sente diferenças da educação angolana em 1982 e quando terminou a carreira de docente na universidade? Sim, porque entretanto houve muita coisa que aconteceu no país que marcaram forçosamente a educação como marcaram tudo o resto. Por exemplo, nós nos primeiros anos de independência em que eu estive no Governo - e não era por eu estar, mas era porque o país permitia, digamos assim - fizemos uma reformulação do ensino, criamos um sistema próprio nosso e conseguimos, por exemplo, pôr 95% das crianças em idade escolar na escola. Isso era de tradição comunista? Não, não, muito criticado pelos países comunistas, muito criticado porque era um modelo próprio… Qual era a diferença?A diferença é que fundamentalmente nesses países socialistas tinham dois ramos de acesso ao ensino superior e no nosso havia um ramo de acesso ao ensino superior que era provisório e nós tínhamos que fazer com que toda a gente quando chegasse à Universidade já tivesse uma profissão. Havia um ensino médio, técnico, especializado, que esse era obrigatório. E todos os países - excepto um ministro da Bulgária, foi o único que me disse: «Talvez vocês tenham razão, mas é capaz ser cedo demais para tentar uma coisa destas» - todos os outros criticavam, porque era uma coisa muito diferente de tudo o que tinha sido feito. Bom, de facto, na prática, o que deu é que o tal ramo que era para parar ali acabou por ser também de acesso ao ensino superior e ficaram os dois acessos e aquilo que era o ensino médio devia levar pessoas, trabalhadores altamente especializados, ele acabavam por ir para a Universidade e deixavam de ser trabalhadores especializados e passavam a ser universitários como os outros. Na prática não funcionou tão bem como isso, mas era um sistema que nós concebemos como provisório. Depois teria que ser aperfeiçoado, teria que ser aumentado o número de tempo num ensino de base. O problema é que depois começou a guerra civil, retomou com mais violência e as escolas começaram a ser fechadas, atacadas, as pessoas a fugir para as cidades… Grande aglomeração de pessoas nas cidades, as escolas nas cidades a rebentar pelas costuras, turmas imensas, e a qualidade de ensino baixou. E foi caindo, caindo, caindo. Hoje, a qualidade de ensino é muito inferior à que era em 1982, mas por razões o problema da guerra e problemas económicos, provocados pela própria guerra, que levou a que realmente caísse e o próprio Ministério da Educação não se atreveu a modificar o sistema; manteve-se quase como definitivo um sistema que era provisório quando foi concebido. E ainda funciona hoje? Está a ser mudado neste momento. Há dois anos que começou a ser mudado e eu acho que tem havido pouca ambição. Está a ser muito lenta a mudança, podia ser mais rápida, na minha opinião. É curioso que fale nisso porque eu, ontem, fui ao portal do Governo e tinha aqui duas notícias que o Ministério da Educação angolano tem em parceria com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa para a introdução do sistema de ensino em Angola: fará sentido? Faz muito sentido. Nós tentamos isso também logo nos primeiros anos mas era a formação de professores, começava por aí… Desde essa altura que se acompanhou sempre as experiências do Brasil, tem muita experiência nesse sentido, e para o ensino à distância utilizando a televisão: Países como o Senegal, Costa do Marfim, etc. Nós já na altura seguimos um bocado essa experiência; portanto, agora, faz todo o sentido a utilização de meios modernos, hoje em dia até pode não ser só a televisão, pode ser já a própria Internet... Há aqui outra que diz assim: «O Ministério da Educação tem disponíveis 15 milhões de manuais escolares para serem distribuídos gratuitamente aos alunos da iniciação à sexta classe, anunciou em Luanda o Ministro, Pinda Simão. Temos material em armazéns e tudo está a ser feito no sentido de serem encaminhados às províncias para a sua distribuição aos estudantes». Gostava que me comentasse isso. É, isso é um problema que existe em Angola efectivamente de distribuição de tudo, o que quer que seja. Há um problema de distribuição grande porque hoje já temos as principais vias reparadas e praticamente as pontes também já reconstruídas, mas o país sofreu danos terríveis em termos de vias de comunicação: comboios, estradas, pontes, mas até hoje há problemas de distribuição. Também há, não só por causa disso, das estradas, das pontes, mas também capacidade de organização para a distribuição. Quer dizer, é quase impensável, é quase ridículo dizer que o único jornal diário que é governamental, o Jornal de Angola, dificilmente chega às províncias fora de Luanda. E quando chega, nunca é no mesmo dia, havendo voos e tal, mas há uma incapacidade de distribuição muito grande e portanto não me admira nada que para tantos milhões de livros haja dificuldade e eles estejam a tentar organizar. Havia duas empresas no ministério da Educação de distribuição exactamente de material escolar, uma em Luanda outra em Benguela, e a partir daí conseguia-se fazer, mas em número muito mais reduzido, numa altura em que havia meios de comunicação… Agora há menos meios de comunicação e as quantidades são muito maiores. E quinze milhões não chegam para o número de estudantes da iniciação até a sexta classe. Há mais, não chega de maneira nenhuma. Mesmo assim vai ser um livro para cada três alunos. Só no chamado “ensino de base”, que são oito classes, há seis milhões de alunos. Bem, há no mínimo cinco manuais para cada ano. É escasso. Já é um passo, mas ainda falta, é preciso fazer maior esforço. Aceitaria o cargo de Ministro da Educação do seu país? Não, de maneira nenhuma, não. Já há muitos anos que me fazem essa pergunta, já fui abordado muitas vezes e sempre disse a mesma coisa: acabou. E da Cultura? Não, nenhum! De maneira nenhuma. Aliás, eu acho que em Angola, as pessoas com – e eu já tenho mais que isso –as pessoas que tenham mais de sessenta anos de idade já não devem ter nenhum cargo executivo. Para a idade média é de quarenta e quatro anos… Nós já temos uma idade de sobrevivência tal… Para conselheiro disto ou conselheiro daquilo está bem, agora executivo não. Não, eu pessoalmente não aceitaria, pelo contrário: lutei tanto para me libertar desses cargos e agora ia voltar? De maneira nenhuma… Vamos mudar a agulha da bússola. Quando me disseram que o Pepetela vinha a Forjães eu disse «Se tiver oportunidade de falar com ele, vou-lhe colocar esta pergunta». O que é que um guerrilheiro lê na guerra, no selva, no mato? Ainda por cima, um guerrilheiro escritor? É o que se consegue apanhar. Depende. Eu estive em duas zonas completamente diferentes: a primeira era Cabinda, com o Congo ali ao lado, Congo, capital Brazzaville, que era o nosso amigo; o outro era o nosso inimigo, capital Kinshasa, do Mobutu. Mas aí no Congo era fácil ter literatura, ainda por cima dominava bem a língua francesa, estudei em francês, não havia problema, aí era fácil ter livros. E tinha muitos amigos que me davam. Aí não havia problema. Agora, quando fui para o Leste de Angola, a um mês de distância da fronteira, era o que poderia aparecer, mas eu tinha um livro que era a minha Bíblia, que eram Os Escritos Militares de Mao Tse Tung, o estratégico, e isso era importante, realmente para uma pessoa ir lendo… Uma pessoa estava na guerra e então tinha que ter material para pensar e ajudou-me várias vezes; e depois, tinha um outro livro que era um livro que encontrei por acaso num armazém nosso na fronteira que era o último livro publicado por Hemingway vivo, que era Ilhas na Corrente. Estava em inglês: óptimo. Ainda por cima, em inglês, melhor ainda. Porque lia devagarinho, devagarinho e aquilo foi durando, mas o Hemingway praticamente quase sempre li no original, mas naquela altura em que tinha ficado anos e anos sempre em contacto com o francês e nada com o inglês, eu já tinha muita dificuldade no inglês, o francês quase que comeu o meu inglês, de maneira que ler o Hemingway no original era óptimo: uma página dava para uma hora, quer dizer, lia e saboreava, e era um papel fino. Mais tarde, foi publicado em português, muito mais tarde, já quando eu tinha acesso aos livros, em Angola, vinha aqui a Portugal e tal, e comprei e li em português e realmente não tinha o mesmo sabor, quer dizer, o sabor que tinha naqueles tempos… Nós também tínhamos pouco tempo para ler, ou para escrever, eu também aproveitava e escrevia… Tinha muito pouco tempo, porque de dia andávamos, de dia estávamos a andar, até estarmos muito cansados, chegávamos a uma base e ficávamos dois ou três dias de papo para o ar a tentar recuperar forças e aí era momento em que haveria mais tempo para ler, mas eu infelizmente tinha várias funções ao mesmo tempo, então eu não tinha tempo disponível durante o dia porque tinha que ver como estava a organização do movimento ali na área, tinha que ver como é que estavam as escolas, porque também era responsável pelas escolas e pela educação politica dos guerrilheiros, tinha quer ver como é que estavam, era responsável pela organização das bases, se tinham trincheiras ou não tinham trincheiras, se houvesse algum problema como era, tinha quer ver como é que estava o armamento… No Maiombe (Cabinda, Norte de Angola) qual era o seu posto? No Maiombe eu era guerrilheiro e tinha responsabilidades pela educação. Só. Ao passo que na frente Oeste eu era comissário político e responsável pela educação além disso. Então o Comissário Político era pau para toda a obra. Até era caçador! Tinha que arranjar comida às vezes, era tudo… «Camarada comissário? Estamos com fome!» Quais são os seus autores favoritos? Depreendo que enquanto escritor deve ler muito… Agora até vou lendo cada vez menos, mas sim, vou lendo… Quais são os seus autores favoritos? Se é possível… Há muitos… Há muitos…. Aqueles clássicos todos que vêm da juventude, quer dizer, o Hemingway, por exemplo, é um deles ou os brasileiros uma série de brasileiros: Jorge Amado, o Guimarães Rosa, o José Luís do Rego, o Garcia Leandro, que me ajudaram… O Guimarães Rosa foi mais tarde, os outros ajudaram na juventude mesmo a aprender a fazer diálogos e a fazer descrições, e coisas assim do género. Esses ficaram sempre como os meus clássicos, como Steinbeck, esses, digamos que escritores que descobri mais tarde, foram os franceses como Camus ou Beauvoir, Yourcenar ou Sartre é posterior, mas mais recentemente apareceram Umberto Eco ou esses… Também li o Dan Brown para saber como se faz um best-seller, mas acho não aprendi (risos), não serão os meus preferidos. Mas têm aparecido uma série deles, de escritores que são importantes e que são bem mais modernos do que estes, mas é uma grande quantidade, sei lá. Alguns portugueses também, brasileiros mais modernos: o Aldo Ribeiro, que eu acho que é um escritor … Vá lá, deram-lhe o Prémio Camões agora há pouco tempo, mas pronto… Já deviam ter dado há muito mais tempo. Critérios de júri. Eu fiz parte do júri e não consegui dar-lhe o Prémio… Acha que por ter recebido o Prémio Camões ganhou mais responsabilidade enquanto escritor? Eu acho que não, eu acho que a responsabilidade é a mesma, agora deu, por exemplo, aqui em Portugal deu maior visibilidade, nesse sentido maior visibilidade implica talvez mais responsabilidade em relação ao leitor, talvez. Mas eu acho que a responsabilidade do escritor é a mesma, deve ser a mesma, deve sempre ser a mesma responsabilidade e exigência que talvez eu não tivesse nos primeiros livros porque escrevia para mim, não estava muito preocupado. Agora desde o momento em que vou publicar, aí tem que ser o máximo de exigência, consegue-se ou não, aí já é outra história. Os temas dos seus livros são todos diferentes uns dos outros. Eu comecei a ler o Mayombe e depois O Cão e os Caluandas, depois O Quase Fim do Mundo é muito diferente de O Planalto e a Estepe… Porquê essa heterogeneidade? É, eu tento não me repetir. É claro que não será possível sempre e haverá coisas que são comuns e que se mantêm. Há certas partes e certas preocupações que eu tenho digamos em 80% dos meus livros estarão sempre presentes. A nacionalidade, o tema da identidade nacional que é fundamental, essa contradição/ligação entre tradição e modernismo e modernidade, problemas sociais e problemas da sociedade que são praticamente comuns a todos eles. Mas tento fazer qualquer coisa um bocado diferente um do outro, exactamente para não ser o que se diz “um escritor de um livro só” que está sempre a escrever o mesmo livro, mas vai publicando com títulos diferentes e nomes diferentes e não sei quê. Bom, não sei… Mas é que, esta diferença de temáticas vai ao ponto de mudar completamente os estilos. O próprio estilo narrativo é diferente de livro para livro. Tem essa preocupação em reinventar a narrativa, o estilo da narrativa? Ou pelo menos não tenho a preocupação de seguir o mesmo estilo, e então tudo depende muito da primeira frase, a primeira frase marca o ritmo. E é evidente que a primeira frase é muito estudada, porque tem a ver com tema. Tema é muito diferente, a primeira frase também será diferente, etc, e então a partir dai depois ganho um certo, chamemos-lhe estilo se quisermos, que vou tentando manter, porque não tenho a preocupação de dizer que este é estilo fulano de tal. Ainda por cima gosto muito de brincar com narradores. Os académicos que depois têm que ler os livros, eu gosto muito de brincar com eles e faço provocações, o que faz com que o livro pareça um bocado diferente. Às vezes tenho vários narradores, às vezes mudo de narradores … Ainda não matei um narrador, já demiti, mas ainda não matei um narrador, acho que qualquer dia vou matar um narrador. Numa entrevista que lhe fizeram a propósito do livro Predadores disse que muitas vezes é preciso mudar o nome da personagem a meio, porque sente que a personalidade se altera e a personagem merece outro nome. Disse até que a filha do Vladimiro Caposso, nesse livro, a Mireille, o surpreendeu com o rumo que tomou na história. O escritor é que normalmente controla as personagens, por isso é que é assim um bocado estranho ler isto. A minha pergunta é: concorda com o José Saramago quando ele diz que «o livro mostra ao autor como quer ser escrito»? É um pouco isso. A história conduz o autor. Eu nunca sei como o livro acaba. Quando estou a começar, excepto se é um livro seguindo mais ou menos uma trama histórica e aí sabe-se o princípio e o fim da acção. E aí termina mais ou menos como a história o diz. E aí eu sei. Mas mesmo assim sei que terminará mais ou menos dessa maneira, mas é um mais ou menos. Agora noutros livros em que não tem trama histórica, eu vou seguindo o fluxo do livro, e as personagens surpreendem-me, sim. Às vezes é o personagem que diz «espera ai eu tenho de ir por aquele lado». E eu deixo. Mireille, sim, a minha ideia era outra completamente. Quando ela aparece, surge e começa o relacionamento lá com o outro jovem eu estava a pensar criar ali uma relação estável. E de repetente ela: «Quero ir para Paris e quero mais não sei quê». E eu: «Vai. Queres ir, vai. Ninguém te impede». Não digam que sou eu que sou um autor repressor, como se diz. (risos) Deixei ir, pronto. E aí surpreendeu me. Aliás em quase todos os meus livros há sempre esse aspecto, uma surpresa que surge. Sei lá, não sei se conhece o A Gloriosa Família. De repente, é uma coisa (pausa) não vou dizer, tiro o efeito. Descobri a meio do livro, e disse - estava a estava a escrever, foi esse livro que escrevi cá em Portugal, passei aqui um período para escrever esse livro. E às tantas no almoço disse «Olha, no meu livro acontece isto» e a minha mulher e a minha filha ficaram aterrorizadas e disseram: «Lá está este a estragar o livro todo». E ficou assim e hoje em dia é uma das referências. Dizem sempre: «Como é que ele fez isso?» São coisas que saem assim, de repente. A sua família participa na construção dos livros? Não com opinião, mas como receptores, assistentes da construção?Eu quando estou a escrever falo muito pouco sobre isso. Mas às vezes, sim, há necessidade, quando a coisa é forte demais, para ver qual é a reacção. Mas já estou decidido a fazer. É um decreto…Normalmente a minha percepção está correcta, que vai chocar. Porque ficam assim chocadas, era assim que eu queria, que chocasse. Noutra entrevista disse que o Tolkien não criou um mundo assim tão diferente daquele que existe, a propósito do papel do escritor enquanto produtor da reflexão. Vê os seus livros como metáforas ou como espelhos da vida real angolana?Um pouco das duas. Há uma tentativa de dar a conhecer uma realidade próxima. De como eu vejo a realidade angolana e hoje em dia eu vejo a partir de Luanda, estou limitado, eu sei, estou muito limitado, eu aviso logo. Ver Angola a partir de Luanda engana, não reflecte a Angola total. Mas tento de qualquer modo, como eu sei isso e como eu conheci muito bem Angola, todo o resto de Angola antes, eu tento sempre compor a coisa. Se visse do outro lado como é que era. E acho que consigo encontrar um meio-termo para isso. Por isso digo mais ou menos sim. Qualquer livro de ficção tem uma metáfora, qualquer que ela seja. Uma ou várias. No fundo, a literatura faz-se de metáforas. Portanto também há esse aspecto, o aspecto metafórico. As duas coisas sim. Mas que essas metáforas no fundo permitam a quem nunca conheceu, ter alguma noção sobre a realidade Angolana, e que seja suficientemente próxima da vivência das pessoas para que os angolanos se reconheçam nos livros. E isso acontece. Os Angolanos fora de Luanda reconhecem-se nos livros. Portanto aí eu digo: «Bom, ok , não errei tanto assim». Os Calús, como nós dizemos, os habitantes de Luanda - os Caluandas - são os reis do mundo, acham que são os reis do mundo. E muito orgulhosos, demasiado orgulhosos da sua condição de gente de Luanda. De maneira que eu tento contrabalançar um pouco. Mas os próprios Calús se reconhecem nos livros. Percebem que estão a ser meio gozados, mas aceitam, acabam por aceitar. Acha que a sua literatura, os seus livros podem funcionar como contra poder à sociedade que está instalada em Angola?Gostaria muito. Mas, não sei, acho que não. A literatura hoje já não tem a força que já teve. Porque hoje há outros meios de comunicação, aquelas com mais impacto, como seja, por exemplo, a televisão. Talvez já não consiga isso. Mas agora que gostaria, sim. Gostaria que fosse a sociedade… Mas acha que a literatura já não tem aquele poder para mudar o mundo?Já não tem. Eu costumo dizer às pessoas próximas do poder: «Eu não percebo porque estão com tanto medo desse livro ou de outro livro». Essa coisa do livro fazer uma revolução, isso foi no tempo da promoção chinesa. Pelo Livro Vermelho, Mao Tsé-Tung fez a Revolução Cultural. Isso já passou… Portanto a literatura angolana neste momento quase que não tem capacidade para influenciar as elites? Ou as elites passam desfasadas disso, não ligam?Eu tenho impressão que, uma parte, digamos, das elites lê e compreende. Mas a literatura acaba por não influenciar muito. Confirma umas coisas do que já pensam e quando é uma critica dizem: “isto não é para mim, é para o vizinho”. A literatura poderá servir de cavalo para “as classes menos favorecidas” rever-se nessa situação e poder reverter algo?Tem servido em parte sim, tem servido em parte para manter a esperança, manter um certo optimismo. Aliás nós somos por natureza optimistas, mas manter esse optimismo de dizer que as coisas vão mudar. Aliás eu tenho sempre a preocupação de pôr um final qualquer, pode ser muito catastrófico, mas há uma porta aberta sempre lá. Há sempre uma porta aberta para a juventude. Isso é de propósito exactamente para chamar a atenção da nova geração que podem avançar por aí. O livro Lueji é uma narrativa a dois tempos, com um espaçamento de 400 anos. Eu não queria estar a perguntar sobre a estrutura do livro porque é uma coisa ou outra, porque acho que é compreensível quando se lê o livro. Mas a minha preocupação é historiográfica. Uma pessoa lê o livro e pensa: «Há aqui um país que tem uma História colonial que é comum a outro país. E há uma História que no nosso país é quase etnográfica ou etnológica que está escondida». Sabe ou sente se está a ser trabalhada essa questão da História, do fundo histórico das populações angolanas, se há progresso, se está bem desenvolvido ou só a literatura poderá salvar os contos, os mitos, o legado tão rico dessas tribos?Tem havido algum trabalho. Havia pouco trabalho. Mas ultimamente já tem havido trabalho, historiadores, antropólogos, etc. Não tanto sobre essa região do nordeste, outras regiões. Mas já vai havendo trabalho. Essa história, bem eu situei mais ou menos 4 séculos, podem ser mil, não sei muito bem, aquilo é tradição oral, são mitos, eu encontrei seis versões diferentes desse mito. E então criei a sétima misturando elementos uns dos outros e disse: «estou à vontade para criar uma sétima versão» (risos). Usando elementos dos mitos que fossem mais romanescos para compor o romance. (Pausa) Há uma grande dificuldade – aliás Lévi-Strauss insistiu particularmente nisso – há uma grande dificuldade na análise dos mitos. Não se pode passar de um mito e dizer a história foi esta, foi assim. Acho que aí, é mais o papel da ficção, porque ninguém espera que o ficcionista esteja a escrever História com H grande. É um mito, ele pegou naquilo e fez-se uma história. E o ficcionista está muito mais à vontade que o próprio historiador. O historiador pode estar a utilizar um mito e passar aquilo para história, com as certezas que os historiadores têm sempre, esquecendo muitas vezes que o mito, sobretudo esses mitos de criação são uma justificação ideológica. Do poder que se tem, do poder que se perdeu e do poder que se quer ter. (Pausa) Isto não é para Angola só, é para África inteira. Há um problema com a História não escrita, não foi escrita ou não havia escrita. E mesmo nos períodos onde já a História é escrita, é preciso ver é escrita por quem? É outro problema. Enquanto sociólogo, como sente a relação entre os angolanos e a sua história recente, a história colonial e a história pré-colonial?É uma reflexão que tenho vindo a fazer ultimamente. Quem me chamou a atenção foram alguns jovens e eu fiquei realmente preocupado com esse aspecto. Realmente, esses jovens, um aqui outro lá, sítios e tempos diferentes, disseram: «A nossa história é tão triste. Colonização, escravatura, tráfico de escravos, guerras, guerras civis, etc. Era melhor esquecer isto tudo, não queremos saber nada da História». Por exemplo um palácio que foi destruído e foi reconstruído segundo a traça original. Parece que é o mesmo, mas não é. Ficou todo destruído e nós insurgimos contra isso e houve uns jovens que disseram: «Isso é um palácio de uma escravocrata, qual é o problema?». Quer dizer, aquilo que é património em muitas sociedades, particularmente na Europa parece que essa juventude ou pelo menos aqueles jovens, achavam que era um património para desaparecer. Não interessa. A partir de agora é que vale a pena começar a conservar o património, o actual, porque o passado é triste demais, então vamos esquecer. Enquanto que eu insisto «Acho que é necessário conhecer o passado, porque é importante, a identidade colectiva, etc». Mas pelos vistos este pensamento anti-histórico - chamemos assim - é mais generalizado daquilo do que eu pensava. A primeira vez que me disseram pensei: «Este jovem está a delirar». Agora segundo, terceiro, quarto, passa-se um problema grave. Já falei com outras pessoas, historiadores e dizem de facto os jovens é uma linha que há, de dizer: «o melhor é esquecer isto tudo. Agora estamos a fazer o país, pronto, vamos avançar». Há uma relação muito, muito ambígua com a História. Qual é o papel da literatura angolana em Portugal? Muita gente que veio da descolonização e agora muita gente portuguesa que está a voltar a Angola. Qual é que acha que é o papel da literatura angolana em Portugal e o papel da literatura portuguesa em Angola?Eu penso que é sempre o mesmo, no fundo. Dar a conhecer outra realidade, tornar mais próximos os povos, na medida que se conhece melhor o outro, valoriza-se mais. Acho que há pouco conhecimento um do outro, não só em Portugal da literatura angolana, há pouco conhecimento. Há três ou quatro autores conhecidos e não muito. A recíproca também é verdadeira, há poucos angolanos a conhecer a literatura portuguesa. Há pouca difusão da literatura portuguesa em Angola. E temos um instrumento para isso, mas esse instrumento não funciona, que é a tal CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). Serve para os ministros se reunirem nos almoços e tal, mas leva muito pouco. Foi guerrilheiro e lutou pela independência do seu país. Sente o seu país independente?Nalguns aspectos sim, sem dúvida alguma. Hoje os angolanos têm uma auto-estima… Há uma Angola? O país existe, tem força?A Nação existe, está criada. Foi a partir dessa luta e do resto que tem acontecido até hoje, que primeiro são angolanos e depois é que são do norte ou do sul, ou fala esta língua ou aquela. Mas primeiro são angolanos, sem dúvida alguma. Há orgulho em ser angolano. Por vezes, sobretudo na população da costa mais virada para o Atlântico, Europa, América, Brasil, há até um orgulhoso que será talvez exagerado. E é virado para o Atlântico com grande desprezo do interior, quer dizer, grande desprezo dos outros países africanos. Aliás, nós somos muito criticados em África por isso. Somos arrogantes, não queremos saber nada de África, só quando precisamos de alguma coisa nos virámos para África. Agora está a mudar um pouco a política externa de Angola em relação a África. Mas é recente. e vem desse problema cultural que nós estávamos muito virados… a elite que no fundo é a que está na costa, está muito virada para o exterior, chamado primeiro mundo ou Brasil, que para nós é primeiro mundo. Mas isso também é resultado dessa independência, dessa nação que existe. Uma nação jovem está sempre em risco, de qualquer maneira, pode acontecer qualquer coisa que provoque fracturas. E temos um problema que é em Cabinda, por exemplo, é um problema de separatismo que neste momento está fraco do ponto de vista militar, muito fraco, eu penso que a população está mais que pronta para aceitar um estatuto especial dentro de Angola, mas o governo tem demorado nessas negociações para estabelecer um estatuto especial. A presença de potências estrangeiras possivelmente os Estados Unidos e a China, neste momento também é um jogador muito importante, não estará a ameaçar a independência?Não. Pode haver influências como sempre houve, mas eu acho que depois de tudo o que Angola já viveu os angolanos não aceitarão de maneira nenhum, nunca mais qualquer dependência. Poderá haver sim influência, jogos de influência, etc. Mas agora pôr em risco a independência, não acredito, hoje em dia os angolanos já não aceitam isso. Com excepção de Cabinda que tem de ter estatuto como a Madeira ou parecido, uma autonomia. Sem dúvida que culturalmente há ali diferenças grandes. Uma identidade própria. Há muitos portugueses a trabalhar em Angola. Ainda há o estigma colonial entre angolanos e portugueses?Há pouco. Não. Eu acho que isso foi ultrapassado muito rapidamente, desde o momento em que se estabeleceram boas relações entre os estados. Entre as pessoas já havia boas relações e entre os estados é que não havia. Eu penso que foi um processo muito rápido. E sobretudo se compararmos… Eu tive ocasião de viver na Argélia durante bastante tempo. Se compararmos a experiência do relacionamento entre a França e a Argélia, até hoje, é impossível haver um debate sobre a guerra na Argélia. E a situação entre Angola e Portugal, conversa-se sobre a guerra, mas tranquilamente. E pessoas que estiveram no mesmo combate em lados diferentes, todos feridos dizem: «Ainda bem que ficas te vivo, vamos beber um copo. Eu conheço cenas dessas às dezenas. Percebe-se que foi uma coisa que se ultrapassou. Pode acontecer às vezes numa discussão por uma outra razão qualquer, alguém diz: «esse vem de lá, é antigo colono. Mas isso é mais como dizem os brasileiros, da boca para fora. Há sempre ressentimentos em pequenos grupos. Mas isso também lá entre o que se passa entre angolanos e aqui há entre portugueses. Mas realmente o relacionamento entre os povos ou entre as pessoas, eu acho que foi extremamente rápido. E não me parece que os portugueses que estão a ir para lá vão sofrer por causa disso. Desde o momento que não prendam o Mantorras (risos). E aí sim há uma retaliação imediata. Como houve por causa da carta de condução. Mas isso foi uma autoridade qualquer e logo a seguir ficou resolvida a questão. Nos últimos tempos falou-se muito do controlo do Semanário Sol, que neste momento é uma referência do jornalismo aqui em Portugal, por parte de empresários angolanos. Neste momento está-se a reverter um bocado o investimento Angolano em Portugal. Como é que vê o facto das elites angolanas estarem neste momento a investir forte em Portugal? Principalmente a Sonangol?Eu penso que são oportunidades de negócio e os empresários e a Sonangol - que é a maior empresa angolana - aproveitam isso. Eu penso que os portugueses devem ver isso com total tranquilidade, porque se fossem americanos ou alemães a investir ninguém dizia nada. Há espanhóis que pelos vistos têm uma televisão aqui, a TVI, são capitais espanhóis. Se alguns angolanos comprarem metade da TVI, isso vai provocar alguma coisa? Última questão. Sonha com o prémio Nobel, Pepetela?Não, não, não. A trabalheira que isso ia dar. De todo?Não. O quase fim do mundo é perfeitinho. Não estava a pensar nisso quando escreveu?Perfeito para o prémio? Porquê? É só ver como é que eles seleccionam as coisas. Isto é uma provocação, mas…Para já era preciso que isso estivesse traduzido para inglês que não está, ou para sueco que não está. Era bom, porque dava muito dinheiro e dinheiro toda a gente gosta… |
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